Entender a dor
Antes de tratar, entender.
Dor crônica é a que persiste ou volta por mais de três meses. Nesse ponto ela costuma mudar de natureza: deixa de ser apenas o aviso de uma lesão e passa a envolver também o modo como o sistema nervoso processa o sinal.
Dor aguda é aviso. Dor crônica é outra conversa.
Quando você torce o tornozelo, a dor é útil: ela protege a área machucada enquanto o tecido cicatriza. Na dor que dura meses, esse aviso muitas vezes continua tocando depois que o motivo original já diminuiu ou mudou. Tratar a dor crônica como se fosse uma lesão aguda que não sarou é uma das razões mais comuns de tratamentos que não funcionam.
Três mecanismos — e muita gente tem mais de um
- Nociceptiva. Vem de lesão ou inflamação em um tecido: articulação, músculo, tendão, disco. Costuma piorar com movimento ou carga e ter um lugar bem definido.
- Neuropática. Vem de lesão ou doença do sistema nervoso que conduz a sensação: nervo, medula ou cérebro. Aparece como queimação, choque, formigamento ou dor ao simples toque. A dor depois do herpes-zóster e a dor ciática por compressão de raiz são exemplos.
- Nociplástica. O sistema nervoso passa a amplificar o sinal sem que uma lesão explique tudo o que você sente. A fibromialgia é o exemplo mais conhecido. Não é dor imaginária: é uma alteração real no processamento da dor.
Identificar qual mecanismo predomina no seu caso muda o tratamento. Um remédio que funciona bem para um tipo pode não ajudar em nada no outro.
O alarme e a central
Gosto de explicar a sensibilização central com um alarme de casa que não para de disparar. Chamam o técnico, ele confere todos os fios, e aparentemente está tudo certo. O problema não estava nos fios: estava na central que processa o alarme, regulada para disparar com qualquer coisa. Na dor que persiste, às vezes acontece parecido — e é por isso que mexer só no lugar que dói, um bloqueio atrás do outro, nem sempre resolve. Alguém precisa olhar para a central.
Exame normal não quer dizer dor inventada
O exame de imagem mostra estrutura, não mostra dor. Uma ressonância normal não significa que a sua dor seja inventada. O contrário também vale: alterações como desgaste de disco ou de articulação são muito comuns em pessoas que não sentem dor nenhuma. Por isso o exame precisa ser lido junto com a história e o exame físico, nunca sozinho.
O que alimenta a dor
Sono ruim, medo de se movimentar, inatividade, excesso de peso, inflamação de baixo grau, estresse e tristeza não são detalhes. Eles interferem no quanto a dor incomoda e no quanto ela atrapalha a vida. O caminho funciona nos dois sentidos: a dor tira o sono, e o sono ruim aumenta a dor. Entrar nesse ciclo pelo lado certo é parte do tratamento.
Ninguém melhora sozinho
Dor crônica é um processo, feito de pequenos esforços somados, e nem sempre chega a 100% de alívio. Metade da melhora vem do que o médico orienta e propõe; a outra metade vem de você — do seu esforço e do quanto você entende o seu problema. Não é transferir responsabilidade. É reconhecer que ninguém melhora sozinho, nem só pelas mãos do médico.
De onde vem isto
Definição de dor crônica e a classificação da dor na CID-11.
Treede RD, Rief W, Barke A, Aziz Q, Bennett MI, Benoliel R, et al. Chronic pain as a symptom or a disease: the IASP Classification of Chronic Pain for the International Classification of Diseases (ICD-11). Pain. 2019;160(1):19-27. doi:10.1097/j.pain.0000000000001384
Proposta do termo "dor nociplástica", o terceiro mecanismo.
Kosek E, Cohen M, Baron R, Gebhart GF, Mico JA, Rice ASC, et al. Do we need a third mechanistic descriptor for chronic pain states? Pain. 2016;157(7):1382-1386. doi:10.1097/j.pain.0000000000000507
Alterações de imagem na coluna são comuns em quem não sente dor.
Brinjikji W, Luetmer PH, Comstock B, Bresnahan BW, Chen LE, Deyo RA, et al. Systematic literature review of imaging features of spinal degeneration in asymptomatic populations. AJNR Am J Neuroradiol. 2015;36(4):811-6. doi:10.3174/ajnr.A4173