Ômicas
Ômicas: ler o que o exame comum não mostra.
O sufixo "ômica" indica o estudo, em larga escala, de um conjunto inteiro de moléculas do organismo: os genes (genômica), as proteínas (proteômica) e as pequenas moléculas do metabolismo (metabolômica). Na dor, elas ajudam a responder duas perguntas: por que um remédio funciona em uma pessoa e não em outra, e o que, no metabolismo, está sustentando a dor.
Farmacogenética: o seu DNA e os remédios
Genes influenciam a forma como o corpo ativa e elimina medicamentos. O exemplo mais bem estabelecido na dor é a enzima CYP2D6, que transforma a codeína e o tramadol na forma que de fato alivia a dor. Quem tem essa enzima muito lenta pode ter pouco efeito; quem a tem muito rápida corre mais risco de efeitos adversos. Para esses perfis, a diretriz internacional de farmacogenética (CPIC) orienta evitar a codeína, com orientação semelhante para o tramadol, e escolher alternativas.
Sobre o resto, a honestidade vem primeiro: outros genes muito comentados em dor, como COMT e OPRM1, ainda não têm evidência suficiente para mudar a escolha do remédio, segundo a mesma diretriz. Antes de fazer um painel genético, vale entender o que ele pode e o que ele não pode responder.
Metabolômica: o retrato do seu metabolismo
A metabolômica mede, no sangue ou na urina, um conjunto amplo de metabólitos — moléculas ligadas à produção de energia das células, à inflamação, aos aminoácidos e a outras vias que o corpo usa para se manter. Em dor que dura, pode ajudar a levantar hipóteses sobre o que alimenta a dor por baixo do sintoma e a orientar ajustes de sono, alimentação, atividade física e inflamação.
É uma área em desenvolvimento. Ainda não existe diretriz internacional que recomende metabolômica de rotina para quem tem dor, e não existe exame que "mostre a dor". Por isso ela deve ser usada como investigação complementar, indicada caso a caso, e nunca no lugar da consulta e do exame físico.
Inflamação e o momento certo
Marcadores de inflamação no sangue, como a proteína C reativa ultrassensível, ajudam a avaliar se há inflamação no corpo como um todo. Na minha leitura, isso pesa na decisão: com inflamação sistêmica elevada, faz sentido tratar a causa antes de um procedimento regenerativo, porque considero esse ambiente desfavorável à resposta do tecido.
Quem decide o exame
Quem indica o exame é o médico, na consulta, a partir da sua história. Não existe painel "de prateleira" que sirva para todo mundo.
De onde vem isto
Diretriz CPIC de farmacogenética para codeína, tramadol, COMT e OPRM1.
Crews KR, Monte AA, Huddart R, Caudle KE, Kharasch ED, Gaedigk A, et al. Clinical Pharmacogenetics Implementation Consortium Guideline for CYP2D6, OPRM1, and COMT Genotypes and Select Opioid Therapy. Clin Pharmacol Ther. 2021;110(4):888-896. doi:10.1002/cpt.2149